A urticária crônica é uma lesão elementar dermatológica e não deve ser confundida com a urtiga, um tipo de planta. Ela apresenta três características principais: edema central circundado por eritema reflexo, prurido (coceira) e caráter transitório, com a pele retornando ao aspecto normal em período inferior a 24h.
O quadro é caracterizado pelo rápido surgimento de urticas (edema da derme superficial), que podem ser acompanhadas por angioedema, o qual corresponde ao edema da derme profunda, do tecido celular subcutâneo e do trato gastrointestinal.
A classificação acompanha o tempo de evolução em: aguda, com duração de até seis semanas, ou crônica, com curso clínico além de seis semanas. Do ponto de vista etiológico, a urticária crônica pode ser subdividida em duas grandes categorias: induzida e espontânea. Entenda mais sobre a doença a seguir.
Embora a urticária crônica não seja uma condição ameaçadora à vida, ela interfere de forma devastadora no bem-estar do paciente. A razão para esse impacto é decorrente de vários aspectos que caracterizam a doença:
Agora que já citamos alguns motivos que justificam o impacto que essa doença causa na qualidade de vida do paciente, vamos conversar sobre o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento da urticária.
Estima-se que a prevalência de urticária crônica seja em torno de 0,5 a 5% na população geral, sendo a forma mais comum de urticária não aguda (66-93%). Acomete predominantemente a faixa etária entre 20 e 40 anos, mais observada no sexo feminino.
A urticária espontânea é definida pela ausência de um gatilho específico para as lesões cutâneas, com evolução maior que seis semanas, resultante de causas desconhecidas ou conhecidas, como a autorreatividade decorrente de mastócitos ativados por autoanticorpos.
Já a urticária induzida indica que as lesões são ativadas por um estímulo específico. Entre os possíveis desencadeantes, estão os estímulos físicos, como o dermografismo sintomático, o frio, a pressão tardia, a incidência solar, o calor localizado e o angioedema vibratório. Os estímulos não físicos envolvem a urticária colinérgica, de contato e aquagênica.
A patogênese da urticária crônica induzida depende da liberação de histamina e outros mediadores de mastócitos ativados. Acredita-se que eles são formados por autoantígenos após estímulos ambientais, levando à criação de IgEs que os reconhecem e desencadeiam a cascata inflamatória.
Devido ao mecanismo fisiopatogênico distinto, outras condições que cursam com as mesmas lesões elementares de urtica e angioedema não são consideradas subtipos de urticária.
Sendo assim, como diagnósticos diferenciais, é possível citar as síndromes autoinflamatórias (síndromes periódicas associadas às criopirinas), a urticária vasculite, a urticária pigmentosa, a síndrome de Wells (celulite eosinofílica) e o angioedema hereditário.
A anamnese é fundamental para o diagnóstico de urticária crônica. Existem três objetivos principais: identificar agentes desencadeantes ou de exacerbação, determinar o grau de atividade da doença e excluir diagnósticos diferenciais. A história clínica deve incluir os seguintes questionamentos:
A atividade da doença pode ser aferida com ferramentas respondidas pelo próprio paciente, como o Urticaria Activity Score 7 (UAS7), questionário de qualidade de vida, também conhecido como Questionário de Avaliação da Qualidade de Vida na Urticária Crônica (CU-Q2oL), e de controle da doença, como o Urtical Control Test (UCT).
Os exames complementares auxiliam no diagnóstico da doença e na exclusão de diagnósticos diferenciais, como a pesquisa de agentes infecciosos (por exemplo, Helicobacter pylori), assim como na investigação de doenças tireoidianas e na realização de teste intradérmico para descartar possíveis alergias.
A história natural da doença é muito variável. Cerca de metade dos pacientes seguem uma evolução autolimitada de três meses. Em um ano, quase 80% deles apresentam remissão total da doença. No entanto, em mais de 10% dos pacientes, é esperada uma progressão de cinco anos ou mais.
A abordagem terapêutica envolve desde o tratamento farmacológico até o afastamento de possíveis fatores desencadeantes. Os anti-histamínicos antagonistas dos receptores H1, como cetirizina, fexofenadina, loratadina, ebastina e bilastina, são considerados a primeira linha de tratamento da urticária crônica. O objetivo é tratar a urticária até ela entrar em remissão.
Como segunda linha no tratamento para urticária crônica, é possível aumentar a dose dos anti-H1 de segunda geração em até quatro vezes da preconizada, sendo indicadas a monitorização de enzimas hepáticas e a orientação cautelosa dos pacientes quando adotarem essa conduta.
A melhora do quadro pode demorar de uma a quatro semanas após o início do tratamento farmacológico. No entanto, nem todos os pacientes atingem uma resposta satisfatória mesmo após ajuste de dose do medicamento, troca do agente anti-histamínico, uso de corticosteroides por via oral e associação de diferentes fármacos. Nesses casos, terapias adjuvantes podem ser indicadas.
O omalizumabe (anticorpo monoclonal anti-imunoglobulina E) corresponde à terceira linha de tratamento. Após seis meses ainda sem resposta, a quarta linha de tratamento é a ciclosporina.
Outros tratamentos são relatados, mas com baixo nível de recomendação, como drogas anti-inflamatórias (dapsona, colchicina e montelucaste), imunossupressores (metotrexate, micofenolato de mofetila, sulfassalazina, azatioprina e tacrolimo), imunobiológicos (medicações antiTNF (fator de necrose tumoral), antagonistas de interleucina 1 e rituximabe) e imunoglobulina endovenosa.
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Nascida em São Paulo e criada em Guarulhos até o momento de cortar o cordão umbilical para se aventurar na maravilhosa Campinas, onde se formou médica, dermatologista e mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Fellowship em Cirurgia Dermatológica em Campinas e exercício da Dermatologia em São Paulo.